História

HISTÓRIA DA CIDADE

A denominação municipal “Parnaíba” ocorreu em virtude da nomenclatura do rio que, por sua importância, é o denominador de todo o delta. O rio Parnaíba nasce na Chapada das Mangabeiras, no extremo sul do Maranhão, a cerca de 700 metros de altitude. Alarga-se ao receber afluentes e torna-se rio caudaloso, percorrendo 1.344 km até sua desembocadura no oceano, delimitando a fronteira entre os estados do Maranhão e Piauí.

Segundo Delson, ao fim do século XVII, Portugal opta por fundar uma série de povoações em território brasileiro, com a finalidade de assegurar a posse efetiva da região e controlar os grandes latifundiários e exploradores de minérios – os primeiros a adentrarem rumo ao interior do continente – que começavam a representar uma ameaça à autoridade da metrópole, pois viviam fora do controle da coroa e possuíam grandes extensões de terras sobre as quais exerciam plena autoridade. Além disso, era necessária uma rota alternativa de ligação entre as duas unidades administrativas do Brasil, o estado do Maranhão e o estado do Brasil, ou mais precisamente entre as cidades de São Luis e Salvador, suas respectivas capitais. A navegação ao longo da costa neste trecho era difícil, com poucos locais possíveis para a atracação de navios. Então, o estabelecimento de uma ligação por terra através do sertão do Piauí, dentre as opções possíveis, tornava-se uma das mais f��ceis. Os primeiros a se aventurar pelo sertão nordestino foram exploradores provenientes da Bahia, buscando novas terras para a criação de gado. Estes se espalharam pela região em pequenos povoados e estabeleceram algumas rotas ainda pouco exploradas, os quais foram aproveitados pela Coroa para a proposição de um sistema de cidades organizadas e patrocinadas por ela. Por ordem da Coroa, foi então criada a primeira paróquia do Piauí, em local escolhido por representantes destes povoados, aproximadamente eqüidistante entre eles e facilmente acessível a todos. No núcleo que viria a dar origem à Vila da Mocha, a futura capital Oeiras, foi fundada, em 1697, a congregação de Nossa Senhora da Victoria. Porém, estes primeiros desbravadores, que haviam recebido as sesmarias como recompensa por lutarem contra os índios, dominavam a região na forma de grandes latifúndios, espécies de feudos pessoais, que ameaçavam o ainda frágil domínio português. Opunham-se à tributação de impostos e dificultavam a instalação de pequenos agricultores e produtores, fundamentais para o estabelecimento de um comércio e, conseqüentemente, para o desenvolvimento de cidades. Mas o problema com estes grandes sesmeiros seria mais grave do que a Coroa imaginou inicialmente.

Algumas leis anteriores que tentaram controlar o poder destes grandes latifundiários, tratando historia-foto1da distribuição e propriedade das terras, apesar de válidas, eram de tão difícil implementação, que a Coroa foi obrigada a emitir novas disposições especiais, ameaçando tomar as terras não cultivadas. Isto gerou uma série de revoltas, culminando com o desligamento do Piauí da Capitania de Pernambuco e sua anexação à do Maranhão, interpretada pelos sesmeiros como uma forma de aumento do controle do governo. Outra lei decretou todas as terras do Piauí como devolutas e, para evitar uma revolta por parte destes latifundiários, a Coroa foi obrigada a reconhecer, em 1715, a validade das antigas sesmarias, o que representou uma derrota para o governo.

Agravada ainda por uma revolta das populações indígenas locais, que durante quatro anos consecutivos atacaram as fazendas eestradas, a decisão de fundar oficialmente vilas no sertão, com administração e funcionários portugueses, foi tomada como forma de garantir a ordem e o controle sobre a região.

A Capitania do Piauí foi criada por uma Carta Régia de 1717, que a desligava da do Maranhão. Segundo Delson, outra Carta Régia de 1716 teria ordenado a criação de duas vilas: Mocha, e a que viria a dar origem à atual Piracuruca. Porém, esta afirmaç������������o �� questionada por Figueiredo, que afirma não ter existido a carta datada de 1716, havendo uma confusão com outra de 1761,que determinava, entre outras medidas, a elevação de Mocha à condição de capital (alterando seu nome para Oeiras), e a criação de mais sete vilas a partir de povoações já existentes, seguindo um modelo anteriormente aplicado em Aracati (CE). Assim, dentre as sete cidades a serem criadas em obediência à Carta Régia de 1761, estava Parnaíba. Na localidade denominada “Porto das Barcas”, às margens do Rio Igaraçu (um dos braços do rio Parnaíba formador do delta que vai desaguar no Atlântico), funcionava, desde 1758, uma série de charqueadas, que produziam e comercializavam carne e couro com outras cidades, além de exportar diretamente para a Europa. Assim, a despeito de a localidade escolhida oficialmente em 1762 para a implantação da Vila de São João de Parnaíba ter sido a comunidade de Testa Branca (localizada próxima ao atual aeroporto, na estrada de acesso ao município de Luis Correia), seguindo uma tendência natural de crescimento. Em 1770, ela foi transferida para o Porto das Barcas, apesar da insalubridade do local.

Figueiredo cita um documento do século XVIII, feito pelo ouvidor-mor Antônio José de Morais Durão e intitulado A Descrição da Capitania de São José do Piauí (1772), como o mais importante a respeito das condi��ões da Capitania naquele momento. Este documento faria menção à prosperidade de Parnaíba, graças ao movimento de exportação para vários portos, do norte e sul do país. Ele também mencionaria a existência de uma estrutura urbana já consolidada, com destaque para a Igreja Matriz, que embora ainda sem cobertura, seria uma edificação sólida de cantaria, com linhas magníficas. Entretanto, citaria também a questão da insalubridade, ocasionada pela proximidade entre as residências e os abatedouros e curtumes.

Segundo um estudo elaborado em 2006 pela Prefeitura Municipal para o tombamento do sítio histórico de Parnaíba, cerca de dez anos ap��s sua fundação a cidade já contava com a segunda maior população do estado, ficando atrás apenas de Oeiras, a capital. A esse respeito, Figueiredo faz refer��ncia a outro documento, redigido por volta de 1775, e elaborado pela Junta Trina que comandou o estado por vinte e dois anos, através de sucessivos governos interinos; nesse documento é mencionado que, das seis vilas já criadas em obediência à Carta Régia de 1761, apenas São João da Parnaíba havia tido aumento populacional e se mostrava promissora economicamente, devido não só à sua localização como porto de mar, mas também às fábricas e manufaturas ali instaladas.

Porto menciona uma correspondência entre João de Amorim Pereira, então sargento-mor da prov����ncia do Piau��, e o Ministro da Coroa, Rodrigo de Souza Coutinho, datada de 8 de abril de 1798, onde o sargento-mor comenta as dificuldades abastecimento da então capital Oeiras, cujo terreno seria incapaz de produzir todo o alimento necessário, devendo este ser trazido a cavalo, o que fazia aumentar seu custo. Nesta correspondência ele mencionaria as vantagens da transferência da capital para margens do rio Parnaíba, “navegável algumas duzentas léguas, abundantíssimo de peixes, sendo suas margens suscetíveis de mais e melhor produção de todos os efeitos…” (PORTO, 1974). Em outra correspondência, datada de 19 de agosto do mesmo ano, o sargento-mor voltava a insistir na mudança da capital para a Vila de Parnaíba, mas como não obteve resultado, respondendo a uma consulta do governador do Maranhão, em outra carta, de 5 de março de 1799, sugere então a transferência para “uma passagem onde o rio Poti faz barra no da Parnaíba, que pela sua fertilidade e vantajosa situação deveria formar-se uma vila”. Neste local mais tarde foi fundada Teresina.

A primeira cartografia existente de Parna������ba data de 1798. Nela pode-se ver a ocupação ao longo do rio e as ruas próximas ao Porto das Barcas já com sua configuração atual. Também aparece a Praça da Graça com as duas igrejas, a de Nossa Senhora das Graças e a de Nossa Senhora do Rosário, e um quadrado que marcaria o pelourinho. A Avenida Getúlio Vargas, antiga Rua Grande, aparece à direita, indicando um vetor de ocupação que seria seguido pela cidade durante as próximas décadas, e que terminaria em frente ao conjunto da Estação Ferroviária, na década de 1940. Esta avenida é hoje o eixo estruturador mais importante do Centro Histórico, e a ligação que ela faz entre o rio e a ferrovia a torna simbolicamente fundamental para a compreensão da história da cidade, como se verá mais adiante. À esquerda do mapa nota-se a pouca ocupação existente, por ser esta uma área sujeita a inundações, podendo-se concluir que a cidade originalmente se concentrava no entorno da Praça da Graça. O Rio Igaraçu, representado como tendo vários braços, também não corresponde à sua configuração, pois este segue sem ramificações até encontrar o Oceano Atlântico.

Em uma segunda planta, datada de 1809, as dimensões da cidade e sua configura��ão são bastante semelhantes, com exceção do aparecimento de uma segunda praça. Esta, pelas características gerais da planta (que não obedece com fidelidade à escala de distância dos referenciais do sítio natural, nas dimensões do rio, por exemplo, e na curva que ele faz após o centro histórico – bem mais distante, mas que no mapa aparece bastante próxima – nem ao número de quadras e ruas existentes), poderia ser identificada como a praça onde posteriormente foi edificado o Mercado. É ali que aparece agora o pelourinho, e não mais na Praça da Graça, o que é pouco usual, uma vez que ele costumava ser instalado na praça principal da cidade. Esta planta segue acompanhada de uma elevação, esta sim bastante precisa e interessante para a análise da configuração urbana. Nela já aparecem diversos sobrados, o que indica a prosperidade da vila. Alguns edifícios se destacam do conjunto, como a Igreja Matriz de Nossa Senhora das Graças, a de Nossa Senhora do Rosário (ainda sem as torres), a antiga “Casa Grande”, construída por Simplício Dias, o Sobrado de D. Auta ou “Sobrado do Mirante” (com uma forca aos fundos), onde hoje funciona o Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parna��ba, e uma pequena capela, no mesmo local onde hoje existe uma das capelas do Senhor dos Passos, podendo-se supor tratar-se da mesma edificação.

Figueiredo chama a aten��ão para o fato de em nenhuma das duas plantas haver qualquer referência à Casa de C��mara e Cadeia, construída em 1775. A autora aponta a presença da forca no pátio do “Sobrado do Mirante��� como um ind��cio de que ela poderia funcionar neste local, mas também questiona este fato por haver indicação de ela ter sido edificada em rua adjacente à praça principal, e não ali. Silva Filho destaca, na planta de 1809: “no centro da praça, no lado oposto à matriz e em simetria com ela, a indicaç��o de um sobrado que faz lembrar as casas de câmara e cadeia”. Já segundo Reis, pelo fato de o pelourinho estar representado na praça menor, a Casa de Câmara e Cadeia deveria estar instalada em uma das casas ao seu redor. Ainda segundo Silva Filho, Parnaíba, por se beneficiar do comércio marítimo, adotou modelos e sistemas arquitetônicos do litoral, diferindo sua arquitetura, quanto à forma e materiais empregados, das outras cidades do sertão, distinguindo-se a implantação das igrejas, as únicas setecentistas do Piauí e implantadas em quadras domésticas, como apresenta a planta de 1809, sendo a Igreja Matriz envolvida por outros prédios, assim como a de Nossa Senhora do Rosário (ambas com duas torres e enquadradas em quarteirãoresidencial). Nesta elevação também podemos perceber o esforço em seguir as recomendações em relação à retidão das ruas e implantação das edificações no alinhamento destas, mantendo um mesmo estilo de fachada, apesar da simplicidade.

Segundo Knox, em 1826, Parnaíba era o segundo centro mais importante da Província, com cerca de 350 fogos. O comércio fluvial e marítimo era intenso, recebendo seu porto dezenas de navios, tanto do Brasil quanto da Europa. Simplício Dias, um dosmais importantes comerciantes do local, seria dono de diversos deles. Além do charque e do couro, produzidos a partir dos rebanhos de gado existentes na região, merece destaque também o comércio de outros produtos de origem extrativista, como o algodão, fumo, couro e sementes. Porém, grande parte deste comércio era feita de forma ilegal, pois apenas em 1834 entrou ematividade a Alfândega de Parnaíba.

Em 1844, Parnaíba é elevada à condição de cidade. Como observa Figueiredo, sua vocação comercial exportadora, dada pela localização geográfica, se consolida durante o século XIX e cresce no início do XX com o comércio internacional da cera de carnaúba e óleo de babaçu, processados em indústrias locais. Posteriormente, com a instalação da Companhia de Navegação, o estabelecimento na cidade de empresas de importação e exportação também é estimulado, fazendo circular renda e mercadorias e incentivando o consumo de produtos vindos principalmente da Europa. Assim, o permanente contato tanto com a cultura européia e americana quanto com a do sul do pa��s e a do sertão nordestino conferiram à cidade um aspecto cosmopolita e uma diversidade cultural bastante significativa.

As marcas destas influências são vis��veis na arquitetura local, e em especial ao longo da Av. Getúlio Vargas (antiga Rua Grande), que estruturou o crescimento da cidade, pois desde sua fundação foi a principal via de ligação entre o porto e a área urbana. Em um trecho com pouco mais de 1km – que vai desde o Porto das Barcas, início da ocupação urbana no século XVIII, até a ferrovia, da década de 1940 – ela é representativa de todo o processo de ocupação do território da cidade. Conectando o rio – elemento principal que ocasionou a fundação da cidade neste local e por onde se fazia o transporte fluvial e marítimo, responsável por trazer todas as novas tendências vindas diretamente da Europa e que deram à cidade o aspecto cosmopolita que ela ostentou desde sua fundação – à ferrovia – que marca o início de uma nova era, ligada à modernidade -, ao longo desta avenida percebe-se os diversos momentos da cidade, pois ela conserva ainda grande parte de seus edifícios, exemplares de três séculos de arquitetura.

Nas proximidades do Porto das Barcas, por exemplo, destaca-se a arquitetura luso-brasileira, configurada por casas t��rreas e sobrados implantados no alinhamento da rua, com pequenos beirais (algumas receberam elementos ecléticos como platibandas e pináculos, porém ainda são visíveis sua estrutura e configuração colonial) e sem afastamentos laterais. Em seguida, na continuidade da avenida, come��am a aparecer as primeiras edifica������es ecl����ticas, inicialmente ainda conservando várias das características coloniais (alinhamentos, acesso direto à rua), mas incorporando elementos como novos formatos e ritmos de esquadrias, platibanda e porão alto. Mais a frente, já surgem as primeiras edifica��ões onde o ecletismo predomina em todos os seus elementos. Mudam as dimensões do lote, a edificação se solta dos limites do terreno, os acessos passam a ser feitos pela lateral ou por escadarias na fachada principal, aparecem esquadrias emolduradas por arcos e outros ornamentos artísticos), e começam a aparecer os elementos art déco, que irão caracterizar a arquitetura de meados do século XX. Seu último trecho termina em frente ao conjunto da estação ferroviária, construída na década de 1940. O edifício da estação propriamente dito ainda segue padrões ecléticos, mas outros edifícios do complexo, a exemplo do almoxarifado, já possuem uma configuração completamente art déco. Quanto às substituições, como observa Figueiredo, ocorreram em sua maior parte em função de adaptações às novas linguagens estéticas em voga, que chegava rapidamente à cidade em função do porto, foram freq��entes. Ela destaca que, apesar de as edificaç��es mais antigas se localizarem no núcleo original (registrado nas cartografias de 1798 e 1809), elas eram em número bem maior, e teriam sido substituídas por edifica����es ecléticas ou por galpões que davam suporte ao comércio de importação e exportação. Assim, é comum encontrar, mesmo na área mais antiga, edificações que receberamornamentação eclética ou art déco (como muitas edificações residenciais), ou mesmo tenham sido inteiramente substituídas, seguindo uma linguagem diferente das que a circundam (como os galpões portuários ou um edifício que abriga hoje um supermercado, no primeiro trecho da Av. Getúlio Vargas). Esta diversidade faz com que o Centro Histórico de Parnaíba torne-se um lugar extremamente rico, onde podem ser percebidos os diversos momentos pelos quais a cidade passou ao longo de sua história, e que ficaram impressos em sua arquitetura. Estes galpões, localizados principalmente nas áreas adjacentes ao rio, após a decadência das charqueadas passaram a funcionar como instalações portuárias ou como indústria de beneficiamento da cera de carnaúba e óleo de babaçu. Vários deles encontram-se em estado avançado de arruinamento. Porém isto nos permite verificar a técnica construtiva utilizada. Observa-se dois tipos diferentes de alvenaria, sendo a base das edificações em alvenaria de pedra e cal de conchas, e com acréscimos em alvenaria de tijolos, que ampliaram sua altura e lhes deram feições art déco de meados do século XX.

Também neste n��cleo original, o adensamento é relativamente maior que nas áreas de ocupação mais recente. A implantação dos lotes, estreitos e profundos, com a edificação no alinhamento da rua e sem afastamentos laterais formam uma separação clara entre o espaço público (a rua) e o espaço privado, dando à rua uma aparência de corredor ou canal. A arborização também é bemmenos presente, concentrando-se principalmente na Praça da Graça, bastante arborizada, além de alguns exemplares dispersos ao longo da via. Os quintais, porém, não são vistos a partir do espaço público. Mas a medida em que se avança ao longo da Av. Getúlio Vargas, em direção à estação, ou à Praça Santo Antônio, esta configuração vai mudando significativamente. Os lotes se tornam mais largos, e conforme as edificações vão se desprendendo dos limites do terreno (como mencionado anteriormente, numa sucessão de tipologias ainda bastante clara), os espaços abertos se tornam cada vez mais presentes, diminuindo a percepção definida dos limites entre o público e o privado, modificando o caráter da rua e dando mais visibilidade aos quintais e jardins.

Pelo contato permanente com as grandes cidades como São Luis, Salvador e Rio de Janeiro, assim como com a Europa, a partir do final do século XIX e durante boa parte do século XX, o ecletismo e suas derivações predominaram nas novas construções. No núcleo mais antigo algumas edificações coloniais sofreram modificações e receberam elementos ecléticos, para se adaptarem ao novo gosto da época, e outras foram inteiramente substituídas. Como observa Figueiredo, baseada em Silva Filho, O ecletismo predomina entre as demais influências estrangeiras da primeira metade do século XX. O Art Déco se destaca nas construções comerciais, prédios, monumentos públicos e se estende para as luminárias e mobiliário, conferindo a uma classe cosmopolita, que não se identifica com o colonial, um ar de modernidade propiciada pelo concreto armado, pelas superfícies cristalizadas e de vidro, em desenhos geométricos abstratos. Além do Art Déco, o Art Noveau dos elementos construtivos e decorativos dos palacetes, as casas de pó de pedra de inspiração inglesa, os chalés e bangalôs de linguagem ornamental e romântica e a arquitetura ferroviária da década de 40 da Estação.

A Praça Santo Antônio, de ocupação mais recente (não aparece nas cartografias do final do século XVIII e início do século XIX), apresenta exemplares muito característicos desta época. Edificações de grande imponência, o refinamento na ornamentação e jardins arborizados diferenciam claramente esta região do núcleo mais antigo, testemunhando uma segunda época de prosperidade econômica e social, ligada principalmente às atividades econômicas de produção, beneficiamento, importaç��o e exportação de bens como a cera de carnaúba, óleo de babaçu, e maquinário agrícola e industrial para esta finalidade.

Quanto ao traçado urbano, nota-se uma diferenciação entre o núcleo original para as áreas de expansão mais recentes, quanto ao tamanho das quadras e orientação das ruas. Percebe-se uma tendência de prolongamento das antigas vias até o encontro debarreiras físicas como o rio (ao norte) e a ferrovia (a leste). Já ao sul, estes prolongamentos seguem até a Rua Pedro II, de onde parte um novo modelo de planejamento, com malha viária bem definida, eixos principais e secundários estabelecidos e quadras de dimensões iguais. Este modelo se estende a sudoeste até quase as margens do rio, assim como após a ferrovia, demonstrando uma preocupação com o planejamento urbano, aparência e organização da cidade, e que reforça a idéia da importância que a cidade teve ao longo de sua história até os dias atuais para o estado do Piauí. No entorno imediato do Centro Histórico aparecem inúmeros conjuntos arquitetônicos interessantes, compostos principalmente de chalés com influência européia e traços modernistas, que se repetem ao longo do tecido urbano, e mereceriam um estudo mais aprofundado, pois definem um caráter diferenciado para a cidade. Ali também se encontra o cemit��rio, antes localizado distante do núcleo original, mas que agora foi englobado pelo crescimento urbano. Este também merece um estudo mais aprofundado, pois ali se encontram enterradas importantes personalidades da história da cidade e do estado, além de existirem exemplares de lápides em mármore e esculturas importadas da Europa no século XIX, ainda em excelente estado de conservação.

Já ao longo da margem do rio, predominam as edificações em taipa, ainda em grande número. Esta é uma característica marcante do local, pois aparentemente continua a se construir desta forma, sendo um exemplo interessantíssimo de arquitetura popular tradicional ainda em produção. É difícil fazer uma datação precisa da época de construção da maioria destas edificações, mas pelo estado de alguns elementos (como peças de madeira, por exemplo), imagina-se que sejam bastante antigas. É interessante destacar as técnicas características do local, como o uso dos troncos de carnaúba na estrutura tanto do edifício quanto do telhado, este recoberto posteriormente com palha também da carnaúba ou babaçu. E como a maioria não dispõe de água encanada, ao longo do rio é comum ver pessoas lavando roupas e utensílios domésticos, mantendo uma estreita relação com a água já perdida na maioria das cidades.

Inúmeras destas edifica������ões, porém, já vêm sendo substituídas por outras em alvenaria de tijolos, com laje em concreto a fim de receber um segundo pavimento.

Na questão da paisagem, percebida por quem circula pela cidade e, principalmente, por quem a observa a partir da Ponte Simplício Dias (que faz a ligação com a Ilha Grande de Santa Isabel)37, destacam-se os imponentes galpões portuários, o conjunto do Porto das Barcas e as antigas chaminés das indústrias de beneficiamento, hoje desativadas. Também é significativa a presença das matas de carnaúba, que conferem à paisagem um caráter singular. O rio, o principal elemento estruturador do núcleo inicial da cidade, ainda desempenha papel importante na vida urbana. Diversas embarcações são visíveis ao longo de seu curso, e a comunidade que habita suas margens o utiliza não apenas para a navegação, mas também para o lazer e para os trabalhos cotidianos de limpeza, lavagem de roupas, etc. Na margem oposta ao Centro Histórico, já na Ilha Grande de Santa Isabel, ainda predomina o verde da vegetação, funcionando como um complemento da paisagem urbana da cidade. Porém, também ali a ocupação tem crescido nos últimos anos, o que pode ser prejudicial se não houver um controle rigoroso. E, já fora do núcleo hist����rico e da ��rea urbana, alguns elementos merecem destaque, como o aeroporto, em estilo modernista, e a pequena Estação Floriópolis, em estado de arruinamento, mas onde ainda é visível a ornamentação em estilo art déco (frisos e elementos em massa), e que merece aten��ão para que não se perca definitivamente.

Após o fim do ciclo da carnaúba, a economia local perdeu o dinamismo, o que, segundo Figueiredo, a colocou a salvo das grandes pressões especulativas, mesmo com o crescimento urbano acelerado após a década de 1970, porém este crescimento foi direcionado para as novas áreas de ocupação da cidade, inicialmente marginais ao Centro Histórico, e que hoje se espalham por uma área bastante extensa.

Assim, apesar de recentemente haver sofrido alterações e substituições, ainda é perceptível a estrutura urbana original da cidade, assim como ainda persistem os principais elementos físicos que testemunham a ocupação do sítio e materializam sua história, além da escala dos edifícios, os usos e as atividades a ela relacionada. Porém, devido à crescente especulação imobiliária e demanda por substituições visando uma “modernização” urbana, o sítio sofre permanente ameaça. O incipiente turismo ainda não despertou o olhar para as questões históricas e sociais do local, e transformando a cidade num ponto de passagem para quem se desloca dos lençóis maranhenses a Jericoacoara, que devido à dificuldade de locomoção entre estes pontos, é obrigado a dormir no meio do caminho. Mesmo o Delta do Parnaíba, ainda pouco explorado, n��o �� suficiente para manter uma demanda turística permanente. Assim, a cidade tem funcionado como dormitório para estes este tipo de turismo, que não valoriza o local nem deixa benefícios para a cidade. Ao contrário, pois aumenta a pressão imobiliária para a substituição dos antigos edifícios por pequenos hotéis e pousadas, em geral de qualidade duvidosa.

historia-foto2O delta do Parnaíba é composto de dunas, florestas, plantações, manguezais e praias desertas, onde se encontram diversos animais, como o macaco-prego, o jacaré-de-papo-amarelo, a garça e o caranguejo-uçá, além de variadas espécies de ��rvores, arbustos e vegetação rasteira, que compõem a riquíssima fauna e flora da região.As dunas, formadas no encontro das águas do Rio Parnaíba com o Oceano Atlântico, chegam a atingir 40 metros de altura. A vegetação do Delta do Parnaíba está sujeita a inundações que ocorrem com o fluxo da maré. A variação da lâmina d’água e o acúmulo de sedimentos têm caráter sazonal e assumem grande importância no equilíbrio ecológico da região.

As principais unidades vegetacionais da área envolvem-se nas praias, dunas, mangues e tabuleiros litorâneos, diferenciando-se devido às varia��ões da composição edáfica e profundidade do lençol freático, e são elas: vegetação pioneira psamófila, vegetação subperenifólia, manguezais, mata ciliar de várzeas e vegetação de tabuleiros.